quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Guerra televisionada

Enquanto acompanhava cenas chocantes da lamentável situação que vem ocorrendo no Rio de Janeiro não conseguia parar de pensar em Pierre Bourdieu e a "Sociedade do Espetáculo." Não sei sinceramente o que me chocou mais: a violência à que estamos submetidos diariamente ou o fato dela estar sendo esfregada na nossa cara em plena rede nacional.

Medo, insegurança, dor da perda. Esses são os sentimentos que os cariocas vêm tendo que enfrentar com mais garra e coragem que sempre. Não é novidade a situação em que vive o Rio de Janeiro. Para quem está de fora é a sede da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016, a Cidade Maravilhosa, capital do Carnaval, mas quem vive na incerteza de chegar em casa são e salvo todos os dias sabe que a realidade é bastante diferente do que canta o samba.

Há dias acumulando no peito o stress e o pânico causados pela guerra entre polícia e traficantes no Rio, hoje os cariocas assistiram o ponto chave desse enfrentamento que parece não ter fim – e ainda não teve. Em uma megaoperação envolvendo mais de 350 policiais civis, militares, fuzileiros navais e oficiais do Bope a polícia conseguiu invadir e dominar a favela Vila Cruzeiro, onde só restaram os moradores inocentes, que se tornaram verdadeiros reféns dessa guerra anunciada.

Em uma exibição ao vivo durante toda a tarde pudemos acompanhar o grande número de traficantes, cerca de 200 homens fortemente armados, deixando a comunidade em direção ao vizinho e agora parceiro, Complexo do Alemão. A polícia, que se armou até os dentes com caveirões do Bope, retroescavadeiras, helicópteros blindados e até tanques de guerra da Marinha, não tinha previsto essa reação dos bandidos e não tinha nenhuma equipe inflitrada na estrada por onde os bandidos fugiram. A pergunta que não quer calar: como redes de televisão conseguiram um acesso mais rápido e próximo dos bandidos que a polícia? Ter que ouvir que a Polícia do Rio de Janeiro, infelizmente tão acostumada à esses tipos de enfrentamento, não possui um helicóptero blindado que esteja ao nível da bandidagem é simplesmente revoltante. Pior que isso é aceitar que redes de televisão possuam aparelhos mais especializados para cobrir esse tipo de operação de guerrilha que os órgãos que deveriam estar combatendo o crime.

E assim a guerra televisionada também se tornou uma guerra adiada. Só nos resta ficar em casa. Com um saquinho de pipoca.

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